Não quero ser polvo!

polvo

Sete horas da manhã. Acordo, levanto da cama, lavo o rosto, enquanto esquenta a água do café ligo a tevê, dou uma lida em alguns emails no telefone celular, arrumo a cama, tomo o café, lavo a louça, tomo banho, escolho a roupa, escovo os dentes, enquanto isso uma notícia me chama para a sala e decido assistir escovando os dentes mesmo, arrumo o cabelo, passo um batom, enquanto penso em qual sapato usar, dou mais uma olhada nos emails, coloco sapato e pronto! Oito horas. Sigo para a aula de francês e enquanto dirijo, vou repassando a agenda do dia mentalmente, paro na sinaleira e vejo se entraram novos e-mails e mensagens no whatsapp. Ops, pego um caminho errado.

Estamos batendo nossos recordes. Rapidamente consumimos o tempo, minuto após minuto. Viramos seres multitarefas. É como se tivéssemos vários braços, todos se movimentando ao mesmo tempo. Pra mim, a imagem ideal deste novo ser, é o polvo. Conseguimos e ou tentamos fazer várias coisas ao mesmo tempo. O dia segue assim. E o pior, termina assim e com a sensação de que não produzimos muito, aliás quase nada. Recentemente assisti a um vídeo chamado Techno Vida, Techno Morte, onde a profissional Martha Gabriel faz um paralelo entre as tecnologias e a velocidade da vida (recomendo assisti-lo!). Ao final, respirei fundo e decidi o que adiava há meses, talvez há uns dois anos: não quero ser polvo. Não quero fazer várias coisas ao mesmo tempo. O ponto é…vou conseguir?

Estamos tendo que reaprender o que é viver o momento presente e muitos procuram como alternativa a meditação e a Yoga. Outros querem resgatar a concentração e encontram no tabuleiro do xadrez, uma solução. E outros, muitos outros (podem ter certeza) querem reaprender a respirar. Com certeza, milhares optam por exercícios físicos e outros tantos, abrem outra porta, a do armarinho de remédios de casa. Cada um traça um caminho na busca por mais tranquilidade e concentração, leia-se menos ansiedade (o mal do século).

Viver o agora, concentrar-se no aqui e fazer uma coisa de cada vez virou um luxo para poucos. Conheci um destes seres (em extinção) na Índia, num momento único, naquelas cenas que te marcam para sempre. Num ashram, eu e mais três amigos pedimos uma informação ao recepcionista. E ele a procurava na internet, quando um dos meus amigos, como uma metralhadora veloz disparou três perguntas. As palavras atravessaram a sala, quebraram o silêncio do pequeno espaço e se perderam no vazio. O indiano não respondeu a nenhuma delas. Foi como se ele não tivesse escutado as perguntas. Nós três nos olhamos. Internamente nos perguntávamos: será que ele ouviu? Será que ele entendeu? Meu amigo insistiu. Novamente as palavras foram perdendo força no ar e…morreram. Quando terminou a pesquisa, o recepcionista se virou pra gente e entregou um papel impresso com a informação que havíamos pedido. Então, corajoso (rs), meu amigo repetiu uma das perguntas. O indiano prontamente, olhando nos olhos do meu amigo, respondeu calmamente.

O momento presente se evaporou das nossas vidas. Viver o hoje é uma mistura de coisas reais e virtuais. Um estado permanente entre on e off. Nos desdobramos para checar o virtual e estar atento ao real. E o cérebro pensa sem parar. Talvez em dobro. Vai ao ritmo de uma discoteca louca. Segundo o ex-CEO do Google, Eric Schmidt, a cada dois dias é criada uma quantidade de informação equivalente ao período que vai do início da história da humanidade até 2003. Quer mais? Entre o apogeu da civilização (séc. VI a.c.) e 2008 o ser humano criou apenas 1% de tudo já feito. Os outros 99% foram concebidos em apenas dois anos.

Mas e daí? Não conseguimos absorver quase nada. Focar em nada. Queremos tudo e retemos nada. Um vídeo mais longo que dois minutos, provavelmente terá a seguinte resposta do futuro ex espectador: “sem chance, não tenho tempo”. No passado, digo em 1985, quando tinha tempo, eu e os colegas da escola, ficávamos uma tarde inteira fazendo pesquisas em livros para o trabalho escolar. Hoje, em apenas 1 hora visitamos uma média de 37 páginas da internet e cada vez que trocamos de tela, perdemos 1 segundo de raciocínio (tá lá no vídeo da Martha Gabriel!). Ah e mais: ela diz que quando você faz várias tarefas você tem 70% de produtividade. Quando você faz uma coisa de cada vez, este número sobe para 90%. UAU! Não aceitamos que o Google demore minutos para nos dar uma resposta. E queremos as informações já na primeira página que ele apresentar, pois não teremos tempo de navegar na segunda página, muito menos na terceira e quarta. Temos a preciosa chance de almoçar com nossos familiares, brincar com os filhos, mas sempre que nos concentramos na tecnologia paralelamente, não estamos ali. Simplesmente não estamos!!! Corpo e mente se separam como nunca antes com tanta frequência.

Nos multiplicamos cada vez mais na mídia, mas estamos por inteiro em poucos lugares. Com um clique enviamos informações e fotos para facebook, instagram etc. E assim, o que pensamos, fazemos e onde estamos, pipocam pelo mundo. A banda larga aumentou nossa conexão e o telefone móvel nos acompanha 24 horas por dia, permitindo a cada um estar conectado o tempo inteiro. Mas…

Quanto queremos ser multipresentes virtualmente e quanto queremos ser presentes no mundo real, de corpo, mente e coração, ao vivo e a cores, por inteiro? Quanto estamos conectados com nós mesmos? E com o outro na nossa frente? Um equilíbrio entre on e off é o grande desafio. Se você se identificou com este tema, sugiro que assista ao vídeo Techno Vida, Techno Morte. Ah, mas tem 19 minutos. São 19 minutos a mais para driblar a presença real e virtual. Mas, vale a pena!

Um comentário em “Não quero ser polvo!

  1. Mais uma vez, tudo acaba na questão do equilíbrio. Somos donos de nós mesmos e se não estamos por inteiro nas coisas que fazemos, e porque deixamos acontecer. E se não queremos estar nisso, temos a opção de dizer não, muito obrigada! Porém, e preciso saber o que este não significa! E abrir mão de quais coisas? Você vive sem estas coisas? Para refletir….. Obrigada pela reflexão!

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