Nos últimos momentos do ano, no Natal

bola Natal

 

 

 

 

 

 

Tento dormir na minha casa, 10º  andar de um edifício. Escuto musica lá fora, conversas, risos fortes, bebidas, brindes, motoristas pisando firme.  Sinto a pressa no ar, um ritmo em total descompasso com o canto das cigarras. Corremos para tentar mais uma vez cumprir o que está pendente na agenda ou na mente. É como se estivéssemos tendo a última chance de fazer tudo antes que a folhinha do calendário vire. Neste momento, mais do que nunca, é possível perceber que dividimos a vida em porções de 365 dias, apesar de não ser.

E só agora e só por alguns dias,  bem no finalzinho dos 365 abrimos espaço na vida. Criamos tempo e todas as noites temos um reencontro com uma turma de amigos diferente: amigo secreto do trabalho, o pessoal da academia, aquele grupo de amigas que em 2014 não foi possível rever, os amigos da escola de idiomas, os colegas da Igreja, os parentes distantes etc. E nesta breve sensação de ter tempo, relembramos como é bom estar com o outro no mundo real e juramos agendar o próximo encontro em breve (o que só acontece um ano depois e olhe lá!). Por que passamos tanto tempo sem nos vermos, fulano?  É a pergunta no ar.

Abrimos também mais espaço no coração, e ao nos sentirmos mais sensíveis, colaboramos mais. Doamos, além do tempo ao amigo, presentes para crianças que nunca vamos ver, mas que escolhemos num pinheiro de uma loja ou de um supermercado. Doamos dinheiro para causas distantes por meio de sites e até nos semáforos. De dentro do carro confortável, olhamos o pedinte ou o vendedor em pé, no sol quente, correndo de um lado para o outro. Ele nos obriga a refletir: que vida boa eu tenho, por que não ajudar? Se ele entregar uma mensagem, aí pode até ganhar um pouco mais, pois ela nos toca como nunca. Enfim, a atitude dele nos dá a oportunidade de nos sentirmos mais aliviados por estarmos contribuindo com algo.

Adiamos o ano inteiro o bar, a festinha, uma conversa, um café, o amigo que sempre quer falar, a ida naquela tia querida que mora longe, o parque com o filho…mas no Natal não. Ah, no Natal é a hora! Aí corremos  com as listas do que falta fazer, do supermercado, dos presentes, das festinhas….corremos, corremos….. Tentamos compensar em alguns dias tudo o que ficou para trás nos 11 meses. Muitas vezes o corpo e a mente  nos suplicam descanso, mas pensamos: agora falta pouco.

Termina o ano. Recomeça o ano. E neste ciclo maluco, mais uma vez, talvez não tenhamos aberto espaço para nós, nem durante o ano, nem mesmo no finalzinho dele. Deixo aqui uma reflexão para mim e para você: quanto de tempo preciso ter para fazer o que realmente amo e estar com quem quero estar? Quando conseguirei dar um abraço em quem amo com calma? Quando poderia ouvir alguém que sempre esteve comigo? Quando vou almoçar com meus pais? Quando vou voltar a correr? Quando vou passar uma tarde inteira com meu filho? Quando?

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